Biopolítica na Hiléia Brasileira: como os interesses comerciais e políticos sufocam a Amazônia

Junho 9, 2008

Por Moni Abreu

Texto produzido para o II Prêmio Opinião e Notícia 2008

 

América do Sul: 7,5 milhões de km² de Floresta Amazônica, entre os países da Guiana Francesa, Suriname, Guiana, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia e Brasil.

Brasil: 4,8 milhões de km² de floresta amazônica, 65% da área total desta floresta.

Região Norte: 3,87 milhões de km² de floresta que cobre 80% desta região.

 

Apesar de parecer um grande tapete verde de onde saltam aos olhos sinuosos caminhos de águas coloridas, essa maravilhosa pluralidade em composição harmônica e interconectada de formas, cores, aromas, texturas e existências faz com que esta localidade planetária seja considerada a maior em biodiversidade e a maior bacia hidrográfica do planeta, um lugar de extrema sedução. Muitos foram aqueles que se sentiram impelidos pelo ar misterioso e nobre desta região. Os naturalistas Humboldt e Bonpland, no século XIX, deram a alcunha de hiléia amazônica à floresta.

Inúmeras expedições científicas, a maioria estrangeira, interessadas nos segredos da floresta, aqui aportaram nos anos 70 a 90 do século passado, buscando conhecer a biodiversidade local como o Projeto Max-Planck, Smithsonian, JICA, Alpha-Helix, CIDA/Canadá, Finlândia, Orstom e outros.

A recente discussão, em nível internacional, a respeito das emissões que contribuem para o aumento do efeito estufa, trouxe mais foco à região que já perdeu para as queimadas o tamanho da Bahia, Pernambuco e Alagoas juntos. A idéia midiática, disseminada a nível mundial, é que a floresta amazônica salvará a humanidade de sua própria desgraça anunciada. Bem sabemos que isto é uma falácia. E a poluição e destruição no resto do mundo? E as florestas da Indonésia? Existem interesses estrangeiros sobre a diversidade do resto do mundo?

Sabemos que nos modelos atuais de aplicação da ciência e da visão política econômica, biodiversidade significa potência, poder e infelizmente, lucro, onde “valores” são anunciados em moeda corrente e não em termos ambientais, de qualidade de vida ou de futuro. E dentro desta região abundante, não só de diversidade de vida, mas de água doce, o grande patrimônio futuro da humanidade, encontramos todos os tipos de agressões, não só ambientais, como sociais e culturais, todas oriundas de um mesmo pacote ideológico que nos impinge a noção de “uso de recursos para o desenvolvimento humano e tecnológico”. Essa mesma noção criou a falsa idéia de “evolução” humana a partir da tecnologia e seus usos. E é para este tipo de ‘evolução’ que a floresta amazônica brasileira está se encaminhando: as queimadas são somente a ponta do iceberg.

A nossa soberania sobre a região amazônica é inconteste, pois esta se encontra sob solo brasileiro. Mas, como não questionar a nossa tênue soberania sabendo que nosso patrimônio genético se transforma em propriedade particular e promove o lucro de multinacionais? A biopolítica, que nos abre os olhos para as questões da biopirataria, bioprospecção, culturas tradicionais, direitos indígenas e patrimônio genético, pode ser o nosso ponto de convergência para a crítica construtiva e para as ações em prol da manutenção criativa, edificante e conservadora de todo o potencial desta floresta. As políticas nacionais, ou a falta delas, que levam a destruição deste manancial é que podem e devem ser contestadas.

A “cobiça internacional” não parece mais uma obsessão nacionalista como era à época de Artur Bernardes, nos idos de 1940, ela já é considerada realidade. Desde inserções de ONGs internacionais gerindo em espaços nacionais a religiões massacrando culturas tradicionais; extravio de seringueiras feito por ingleses para a Malásia à patente de açaí no Japão, muito já aconteceu com o potencial físico-cultural amazônico. Não se trata de um nacionalismo extremado ou equivocado, a preocupação com a ocupação, interpretação, uso e exploração da floresta na porção brasileira. Insinua-se uma tentativa disfarçada de ‘internacionalização amazônica’ e é desconcertante ver imposições transculturais, políticas e econômicas de proporções insuportáveis, vindas de outros países e continentes, intitulando-a como “patrimônio universal” para justificar atitudes intrusivas, imposições econômico-culturais e dar “parecer técnico” sobre nós e a gestão de nosso território.

Se não existisse a noção de lucro e propriedade, não precisaríamos nos preocupar com fronteiras e provavelmente nem com soberania. Se a perspectiva internacional fosse abrangente e verdadeiramente para conservar de forma holística, a região amazônica não estaria sufocada com tantos problemas e intrigas como grilagem de terras, questões fundiárias, trabalho escravo, garimpo ilegal, desrespeito cultural, corrupção, invasão de unidades de conservação ambiental e muitos outros, oriundos exatamente desta invasão multicultural interesseira e constante na região.

Um forte desejo de ruptura desse paradigma destrutivo pseudo-desenvolvimentista deverá nos guiar a uma saída de mestre deste aparente caos nesta região, que não é a única a sofrer com o desgoverno político, o descaso ambiental e os anseios externos.

O sentido de nossa existência deverá ser focado neste legado, esse grande patrimônio, que podemos e devemos manter aos nossos descendentes, com toda sua beleza e magnitude, da forma como ela é: integra, harmônica e bela em sua gigantez imensurável.

 

BIBLIOGRAFIA

Amazônia: interesses e conflitos, conjunto de matérias e reportagens organizada pelo editor Carlos Vogt para a ConCiência, Revista Eletrônica de Jornalismo Científico , acessado em maio/2008 em: www.comciencia.br/reportagens/amazonia;

 

Amazônia selvagem: um problema do tamanho da amazônia, matéria jornalística da equipe do Jornal O Globo, acessado em maio/2008 em: http://oglobo.globo.com/blogs/amazonia

 

Utopia científica ou internacionalização da Amazônia, matéria de Lucio F. Pinto, publicada no Jornal Estado de São Paulo em 17 de fevereiro de 2001, acessada virtualmente em maio/2008 no site: http://www.geocities.com/toamazon/toaesamazonica.htm

 

 

 

 


MARINA, FECHE AS CORTINAS! Ou como a biopolítica derrubou a política das bios

Maio 18, 2008

 “O que se fizer da Amazônia será, ouso dizer,

o padrão de convivência futura da humanidade

 com os recursos naturais, a diversidade cultural

 e o desejo de crescimento.”

Em Carta de Demissão de Marina Silva,

ex-ministra do Meio Ambiente

 

Num ato extremado, acabou a peça. As luzes se apagaram repentinamente e os espectadores, que não saíram ainda, ficaram lá, abobados, com a impressão de que não entenderam o último ato. Dramático? Cômico ou de terror? Foi ‘terrir’ de mau gosto ou foi pior que isto? Acabou mesmo?

Meio que em estado de deja vu, assistimos o novo basta. Desta vez o último de nossa heroína.

Cansada se ser vista como “fantasma da ópera” a nossa atriz principal cansou-se de ser invisível nesta obra burlesca. Cansou-se de atuar magistral e shakespeareanamente, junto com atores canhestros num espetáculo mambembe. Aquela que julgávamos incansável, cansou-se de fazer a dança ianauá[1] ouvindo rock-‘n’-roll.

Para as apresentações nacionais, estamos a descoberto, pois o novo ator principal não possui o mesmo quilate e não está no mesmo patamar de atuação técnica. Agora, para as apresentações internacionais o espetáculo está inapresentável.

Perdemos a capacidade de dialogar com o estrangeiro nas questões universais mais urgentes e que aqui, nem em bom e velho tupiniquim os produtores e diretores da farsa não entendem. Preferem levar a peça num estilo mais bufo, mas que sabemos bem, rende muito no bolso. Dos patrocinadores, deixemos bem sublinhado!

 

Marina, sentimos muito. As urgências do governo em satisfazer interesses alhures, estão além das necessidades humanas mais básicas: a de futuro próprio, justo, devido e de direito. O uso das tecnologias ao bel prazer dos ricos e detratores da biodiversidade e contra toda a nossa humanidade, foram mais fortes e o poder da coletividade perdeu, mais uma vez.

Sem Marina, a paladina das bios, as chances de mantermos as questões de vital importância na roda dos debates, são quase nulas. E agora o que faremos com as biotecnociências alastrantes e daninhas? Como sobreviver aos transgênicos, como manter nossos conhecimentos tradicionais, nosso patrimônio genético e biodiversidade? Tudo agora é propriedade particular, pertencentes aos interesses do poder e dos poderosos. Fica claro que a irritação do “dono do teatro” e a repercussão internacional de seu ato significa que você já está fazendo falta para a boa imagem ambiental deste país.

O “grand finale” desta longa peça que durou cinco anos e meio é um quase ato terrorista contra os brasileiros. O nosso ‘anjo da guarda’[2] do verde brasileiro, desmoralizada e cheia de servir de fachada, um verdadeiro ‘mostruário de idéias verdes’ para um governo irresponsável, acaba de deixar uma brecha para os interesses “internacionalistas da Amazônia”[3]. Vamos ter que pegar em arcos e flechas para defendermos nosso patrimônio dos interesses escusos e entreguistas de políticos de meia pataca e dos governos estrangeiros “preocupados” com a nossa biodiversidade, chamando-a de “patrimônio universal” (leia-se, adeus soberania!).   

Marina, nossa heroína, fechou enfim, as cortinas. Agora as decisões a serem tomadas sobre a nossa VIDA, decisões que afetam o presente e o futuro de todos os brasileiros estão nas mãos dos ‘patrocinadores’.

Saberiam eles, ler e entender em português a Constituição do Brasil?


[1] Dança relativa ao grupo indígena que habita o Oeste do Acre. Referência a tribo e à Marina Silva em: http://www.senado.gov.br/web/senador/tiaovian/Publicacoes/NinguemMorrera.pdf -

[2] Definição de Frank Guggenheim, diretor executivo do Greenpeace Brasil, para Marina Silva,

[3] Destaque da declaração a respeito da renúncia da ministra do Meio Ambiente Marina Silva feita pelo jornal britânico “The Independent”: “Esta parte do Brasil (Amazônia) é muito importante para deixar para os brasileiros”.


Benvindos!

Maio 11, 2008

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