Ao professor e amigo, Luis Maffei
“… Minh’ alma é como a pedra funerária
Erguida na montanha solitária
Interrogando a vibração dos céus ! . …”
Ambiciosa , Florbela Espanca, em Charneca em Flor
“… Minha alma é uma orquestra oculta;
não sei que instrumentos tangem e rangem,
cordas e harpas, tímbales e tambores, dentro de mim.
Só me conheço como sinfonia. …”
Fernando Pessoa, enquanto Bernardo Soares,
no Livro do Desassossego
Das almas
A alma é um mistério. Se existe ou não, não é o caso. O caso é que muitos bons poetas se detiveram a escrever sobre as suas e isso já basta para levarmos algumas considerações adiante.
A Flor da alma aqui se configura como a descrição de algo excepcionalmente interessante: falar do termo alma. Embora seja também um trocadilho com relação ao nome de Espanca e referência à forma como esta assinava no início da carreira.
Falemos pois sobre a tão vicejada alma, não somente aquela que dá conta do que é ‘essência’, da anima[1], do que nos define uns dos outros e do mundo e que nos coloca a par do tempo, devorador, mas também a que se mistura em muitos versos ao significado de ‘patrimônio divino’ e portanto, considerada nossa única parte imortal. Aquela que costumamos seccionar do corpo, às vezes misturar com sentimentos, afastando da razão, mas que no fundo é tudo isso junto. Aquela que serve de tema para filósofos, teólogos e psicólogos, mas que somente fica compreensível nos versos dum poeta.
Alma vera
Que espécie então de alma os poetas possuem? Uma alma amortalhada ou imortalizada? Nos bons poetas, os dois. No caso de Florbela Espanca e Fernando Pessoa podemos dizer que ambos possuíam “almas”, muitas delas, entre eternamente amortalhadas e mortificadas e igualmente, por conta desta mesma mortificação, imortalizadas para os falantes da língua portuguesa.
Essa alternância já daria uma boa dúzia de considerações, mas paremos pois a observar o quanto a supervalorização religiosa da então dita alma, e portanto item não-mundano, se mistura com sentimentos bastante humanos, sensórios e até muito carnais em ambos os autores. Por vezes a palavra confunde, não só seus leitores, mas a própria expressão dos sentimentos dos poetas, como se aquilo que @ poeta percebeu ou sentiu, tivesse sido adensado àquilo que disseram que eles deveriam ser ou expressar, enquanto filhos de deus, detentores de uma alma. Em Pessoa, graças às suas diversidades expressivas e multiplicidades egóicas, a alma toma contornos diversos e às vezes um tanto libertos da percepção religiosa embutida, mas em Florbela sua latria e dulia é transparente e expressa em muitas de seus textos.
Sintonia das almas: Espanca e Campos
Uma eterna solidão e a certeza de que as horas passam e a morte a cada segundo nos é mais próxima: esse é o mote para a descoberta de alguma essência interior traduzida como alma em muitos dos poemas de Espanca e Pessoa. Ambos vivenciaram os primórdios do modernismo, mas demonstravam um cansaço de tudo, uma falta de fé em seu tempo como observamos nos poemas Nostalgia de Florbela e em Lisbon Revisited, de Álvaro de Campos, personalidade de Pessoa no qual nos deteremos doravante.
Apesar de serem contemporâneos, viverem em eterno desabafo e terem uma velada homosexualidade, uma coisa os distinguia: ela manteve sua alma íntegra, alheia ao momento histórico literário, e com ousadia intelectual, viveu apenas de expressar sua necessidade interior, ao contrário dele, que viveu o modernismo ao máximo, fragmentando também a sua alma em várias delas.
Em Florbela a palavra alma é uma constante, fruto provável de seu enraizado e não confesso cristianismo. Suas antevisões de morte são clássicas percepções de sua alma que já nasceu velha, se é que eu posso usar um eufemismo desse! (convenhamos: que criança de sete anos escreve poema sobre a morte?). Confirmando sua cristandade, além das alusões a itens religiosos, sentimentos de culpa e misericórdia, citações de deus, de santos e de súplicas, percebe-se a dualidade alma-corpo que fica expressa em muitos textos, onde a expressão de sua alma, mais elevada que a questão corporal, marcou em sua vida real uma dificuldade relacional grande e um desejo pelo além-vida maior ainda.
Pessoa, mais precisamente enquanto Álvaro de Campos, um dos antagonistas de seu próprio eu, em sua dita ‘terceira fase’, a que nos interessa, na qual procura descrever a alma humana, apesar de ser um homem lúcido, se deixa dominar então pelos sentimentos religiosos e começa a contar as horas e os dissabores para o seu derradeiro fim, um livrar-se da alma e dos seus subseqüentes pesadelos.
Neste aspecto ambos os autores também partilham com seus leitores e seguidores, os momentos finais de suas tragédias anunciadas, ambos possuindo escritos moribundos entregando suas almas.
Parâmetros da alma
Como análise mais precisa e minuciosa, escolhi dos dois textos abaixo, alguns sub-temas onde poderemos encontrar alguns novos dados que exponham como a alma, para cada autor, se apresenta.
FANATISMO
Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim!…”
Florbela Espanca
MAGNIFICAT
Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, que tens lá no fundo?
É esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia !
Álvaro de Campos
PROCURA
Aqui vemos a eterna alma solitária de Flor, mais uma vez à procura do outro dentro dela mesma, uma constante em sua poesia: “Passo no mundo, meu Amor, a ler, No misterioso livro do teu ser” .
Campos procura respostas para sua alma inquieta, que ele deseja abrandar com montes de perguntas: “Quando é que despertarei de estar acordado?” , “Onde? Como? Quando? Gato que me fitas com olhos de vida, que tens lá no fundo?”
NARCISISMO
Ambos ou autores falam de si para si. Florbela mais uma vez exprime um narcisismo ímpar, como se confessasse diante do espelho, não somente um fanatismo pelo outro, ou o sentimento por ele gerado, mas de forma indireta por si mesma: “Pois que tu és já toda a minha vida!”.
Campos, como que falasse também a uma amante, faz alusão na verdade à sua própria alma: “Sorri, minha alma, será dia!”
FINITUDE
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”, Florbela passeia pelo mórbido em frase filosófico-poética de simplicidade ímpar e que expressa de forma passiva o saber de sua mortalidade, o que nos leva a entender seu ato final.
Já Campos, inquieto, questiona, busca encontrar sua ‘paz final’, mas não sem angústias e se interroga: “Quando é que passará este drama sem teatro”.
TEÍSMO
As almas de ambos os poetas devem estar curtindo os desígnios divinos: Campos padecendo no céu neste exato momento e Florbela deve ter tido a chance de curtir um clima mais ‘tropical’ que o de Portugal!
Em ambos fica muito marcada a presença de uma imagem de divindade e a dependência de ditames gnósticos. Em várias produções de Florbela estão bem descritos os seus problemas de consciência cristã. Neste texto especificamente encontramos duas boas linhas: “…toda a graça, Duma boca divina fala em mim!” onde podemos entender que, ou ela é instrumento de seu deus, ou a própria e “…tu és como Deus : Princípio e Fim!…” onde fica claro seu entendimento religioso e sua percepção criacionista, além da consciência da idéia de sua transição de existente para não-existente.
Em Campos, destacamos duas inserções discretas e inspiradas em grande conhecimento de línguas. Primeiro o próprio título do poema, Magnificat, utilizado em sentido de força, poder e engrandecimento, atribuições ligadas ao divino, mas principalmente utilizado em seu significado latino de cântico inspirado na Virgem Maria, onde se agradecem pelas magnificências concedidas, embora nos pareça que ele reclama um rosário sem fim de dar dó.
Depois a referência de um personagem bíblico: “Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei”, primeiramente como inserção sutil de apenas um nome, mas que numa análise mais profunda nos revela sua intenção religiosa: o nome Josué vem do hebraico Yehoshua e curiosamente significa “Iavé é salvação” e que em última instância traduz-se como JESUS. Para além da descoberta do verdadeiro título do poema, podemos pensar na situação do referido personagem dos textos da bíblia. Josué foi quem recebeu o bastão de Moisés, após a morte deste, e que a princípio não desejava tal fardo imposto por seu deus, tendo sido ‘orientado’ eficientemente a ser fiel e priorizar as promessas divinas, depois de alguns protestos! O evento descrito no poema está no décimo capítulo do Velho Testamento do Livro de Josué, onde em uma intervenção divina, deus faz o sol parar, de forma que Josué possa matar todos os inimigos antes de escurecer. E é assim, nesse susto de morte, que nosso autor acorda!
Sem ser taxativa na análise, fica curioso notar que no texto encontramos:
1) o uso de termos científicos médicos, como coração e olho, indicando bem a função dos dois, no último como captador da luz do dia e sobre o primeiro, descrito no verso “O coração pulsa alheio”, mostra conhecimento do funcionamento do órgão.
2) termos científicos astronômicos: estrelas, universo, dia e sol. Destacando que o sol é o centro do universo, em contraposição ao pensamento religioso, onde deus é o “centro” do universo.
3) os termos dia e sol também são usados em seus significados místicos: o primeiro, sinal de boas notícias e o último, considerado um deus em muitas culturas.
4) alusão científica discreta ao gato e suas propriedades: o único animal doméstico que não perdeu suas qualidades selváticas e cujos olhos têm a capacidade de refletir à noite, permitindo-os de enxergar no escuro, que possuem uma audição mais acurada que o cão e caem em pé;
5) outros significados místicos para o gato: é um ser que foi associado às bruxas na idade média e portanto diabólico. Na cultura egípcia significava proteção tendo sua representação na deusa Bast, que possui cabeça de gato. Seus olhos, para alguns, são um portal para o inferno ou o ‘outro lado da vida’
REDENÇÃO
Por fim encontramos nos dois textos, embora de forma diversa, a questão da salvação, cuja acepção é de libertar-se, passar de uma situação difícil para outra confortável, obter felicidade eterna a após a morte, triunfar.
Para Florbela a redenção se mostra nos versos: “E, olhos postos em ti, digo de rastros:/”Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,/Que tu és como Deus : Princípio e Fim!…” onde concluímos que seu olhar ‘posto’ é uma reverência, que o rastro é aquilo que nos faz levar a algo e que independente de sua racionalidade, deus é tudo que importa e onde ela se deposita no fim.
Para Campos a redenção se expressa nos versos “Gato que me fitas com olhos de vida, que tens lá no fundo? /É esse! É esse!/ Esse mandará como Josué parar o sol/ e eu acordarei/ E então será dia,/ Sorri, dormindo, minha alma!”, onde agora compreendemos a função do gato como a descoberta de um portal de passagem, a questão da eliminação dos “inimigos de deus” e o acordar para o ‘dia’, cujo sol esteriliza impurezas e liberta a alma.
BIBLIOGRAFIA
Brito, José Carlos A., Florbela Espanca, a alma em expansão, 2005. No sítio:
http://www.jornaldepoesia.jor.br/jcarlosbrito6.html
Pessoa, Fernando, Poemas de Álvaro de Campos: Obra poética IV, Coleção L&PM Pocket, Editora L&PM, Portugal 2007
Poemas de Florbela, em Versos de Segunda, Publicação on-line de poemas. No sítio: http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/florbela.html
Silva, Anaxsuell Fernando da, Fernando Pessoa: notas de uma cartografia sentimental, em Revista Eletrônica Inter-Legere, Nº03, 2008. No sítio: http://www.cchla.ufrn.br/interlegere/inter-legere3/pdf/pesquisas2.pdf
[1] A anìma latina, significando ’sopro’, ‘alento’ , que semanticamente é ligada ao grego Ψυχή,
psique ’sopro de vida’, ‘alma’, que se confunde com
spiritus, similar ao grego Πνεύμα,
pneûma, ‘emanação’, ‘hálito’, ’inspiração’
, mas que tem antes origem em ανεμός, a
nimos, ‘vento’.