“O que se fizer da Amazônia será, ouso dizer,
o padrão de convivência futura da humanidade
com os recursos naturais, a diversidade cultural
e o desejo de crescimento.”
Em Carta de Demissão de Marina Silva,
ex-ministra do Meio Ambiente
Num ato extremado, acabou a peça. As luzes se apagaram repentinamente e os espectadores, que não saíram ainda, ficaram lá, abobados, com a impressão de que não entenderam o último ato. Dramático? Cômico ou de terror? Foi ‘terrir’ de mau gosto ou foi pior que isto? Acabou mesmo?
Meio que em estado de deja vu, assistimos o novo basta. Desta vez o último de nossa heroína.
Cansada se ser vista como “fantasma da ópera” a nossa atriz principal cansou-se de ser invisível nesta obra burlesca. Cansou-se de atuar magistral e shakespeareanamente, junto com atores canhestros num espetáculo mambembe. Aquela que julgávamos incansável, cansou-se de fazer a dança ianauá[1] ouvindo rock-‘n’-roll.
Para as apresentações nacionais, estamos a descoberto, pois o novo ator principal não possui o mesmo quilate e não está no mesmo patamar de atuação técnica. Agora, para as apresentações internacionais o espetáculo está inapresentável.
Perdemos a capacidade de dialogar com o estrangeiro nas questões universais mais urgentes e que aqui, nem em bom e velho tupiniquim os produtores e diretores da farsa não entendem. Preferem levar a peça num estilo mais bufo, mas que sabemos bem, rende muito no bolso. Dos patrocinadores, deixemos bem sublinhado!
Marina, sentimos muito. As urgências do governo em satisfazer interesses alhures, estão além das necessidades humanas mais básicas: a de futuro próprio, justo, devido e de direito. O uso das tecnologias ao bel prazer dos ricos e detratores da biodiversidade e contra toda a nossa humanidade, foram mais fortes e o poder da coletividade perdeu, mais uma vez.
Sem Marina, a paladina das bios, as chances de mantermos as questões de vital importância na roda dos debates, são quase nulas. E agora o que faremos com as biotecnociências alastrantes e daninhas? Como sobreviver aos transgênicos, como manter nossos conhecimentos tradicionais, nosso patrimônio genético e biodiversidade? Tudo agora é propriedade particular, pertencentes aos interesses do poder e dos poderosos. Fica claro que a irritação do “dono do teatro” e a repercussão internacional de seu ato significa que você já está fazendo falta para a boa imagem ambiental deste país.
O “grand finale” desta longa peça que durou cinco anos e meio é um quase ato terrorista contra os brasileiros. O nosso ‘anjo da guarda’[2] do verde brasileiro, desmoralizada e cheia de servir de fachada, um verdadeiro ‘mostruário de idéias verdes’ para um governo irresponsável, acaba de deixar uma brecha para os interesses “internacionalistas da Amazônia”[3]. Vamos ter que pegar em arcos e flechas para defendermos nosso patrimônio dos interesses escusos e entreguistas de políticos de meia pataca e dos governos estrangeiros “preocupados” com a nossa biodiversidade, chamando-a de “patrimônio universal” (leia-se, adeus soberania!).
Marina, nossa heroína, fechou enfim, as cortinas. Agora as decisões a serem tomadas sobre a nossa VIDA, decisões que afetam o presente e o futuro de todos os brasileiros estão nas mãos dos ‘patrocinadores’.
Saberiam eles, ler e entender em português a Constituição do Brasil?
[1] Dança relativa ao grupo indígena que habita o Oeste do Acre. Referência a tribo e à Marina Silva em: http://www.senado.gov.br/web/senador/tiaovian/Publicacoes/NinguemMorrera.pdf -
[2] Definição de Frank Guggenheim, diretor executivo do Greenpeace Brasil, para Marina Silva,
[3] Destaque da declaração a respeito da renúncia da ministra do Meio Ambiente Marina Silva feita pelo jornal britânico “The Independent”: “Esta parte do Brasil (Amazônia) é muito importante para deixar para os brasileiros”.
Junho 9, 2008 em 8:54 pm
Se era para dar um “acorda” ou até mesmo um
“sacode”, caiu como uma luva!
Para bens pela coragem e boa sorte!