… Abaixou-se para ajeitar o sapato. Maldito. O queira tanto e agora lhe parece um inferno. Descobriu que atrapalhava seu andar e ainda lhe deixaria uma marca dolorida.
Sentia-se assim, impetuosa. O que via, queria. Não pensava muito antes de escolher. Tinha essa tara por quase tudo. Ver, querer, pegar, ter!
Foi assim com aquele sapato.
Já era quase 18 horas quando passou em frente a uma loja. Lá estava ele. Vermelho, imponente, ao seu alcance. Entrou. O vendedor acompanhou fixamente seus passos suaves arrulhando aquele seu vestido justo e, de pronto, se deteve exclusivo. Trouxe cheio de sorrisos o item que ajudou a calçar com olhares revirados. Elogiava cada passo, como se fosse a única cliente do dia. “Ficou linda”. “Dê mais uma volta”. “Não tenha pressa”. “Combinou com seu vestido e seus cabelos”!
O salto pontudo afundava o tapete e do espelho inclinado no chão, ela via seu entre coxas. Ficou assim a mirar-se. Ora entre o sapato e si mesma, ora para o vendedor hipnotizado atrás de si. Divertia-se. Sabia-se exuberante e deleitava-lhe imaginar o quanto mexia com os desejos dos homens. Sacudiu os longos cabelos ruivos ajeitando-os como se eles a impedissem de ver melhor. Virou-se e revirou-se tanto quanto os olhos do rapaz, que percebeu arfante e indulgente.
A loja já estava parcialmente fechada e o caixa impaciente com a indecisão da cliente.
O vendedor aproximou-se sussurrando: “Vai levar?”
Parada diante de si mesma reflexa, acordou do deleite e pensou em outro. “Sim, querido, vou levar? Tem certeza que você gostou?”
“A-d-o-r-e-i!” sibilou mal intencionado o musculoso rapaz.
Levou-a ao caixa, embalou o par mais vermelho que já vira e solícito entregou-os em mãos “Meu dia acaba aqui. Mas a noite está só começando…”
Ela pegou, segurou por segundos significativos, fixando aqueles olhos que a comiam.
Ao chegar na esquina, abriu a caixa, tirou os saltos pontudos vermelhos e calçou. Ficou à espera.
Alguém circundou sua cintura, “Vamos sapatinho vermelho?”. Entram na primeira espelunca que encontram.
Três horas depois ela sai, afogueada, esticando o vestido e abaixando-se para ajeitar a fivela do sapato…
Texto original: Moni Abreu
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vejo que temos uma romancista talentosa aqui, não?
sucesso sempre…vc escreve muito bem, Moni!