Aqueles olhos verdes e a pinta na borda dos lábios. Isso que lhe atraiu a atenção quando se conheceram. Hoje estão casados. Lá do quarto ele a ouve, em tom estridente, reclamar e protestar. Só porque disse que ia beber e jogar com os amigos (mas vestiu seu melhor terno) é que o estresse começou. Vocifera que ele não gostava mais dela, que tinha se tornado invisível, que eles não eram mais os mesmos. Suplicante, pediu que não fosse, que ficasse com ela. Ele virou-se, impassível, pegou a chave e saiu.
Seguiu sem hesitação para o clube de suingue, e não o bilhar como dissera.
Chegando ao local escolheu uma máscara disponível, condição para a entrada. O salão estava cheio de pessoas liberadas e se imaginou liberto. Respirou fundo e penetrou àquele meio. Ao som da batida musical, instigante, foi se soltando e depois de uma pequena dose daquela bebida, se soltou de vez. Foi direto no pescoço de uma, dizendo coisas que jamais diria e virando-se para outra, disse o mesmo. Sentiu-se um garanhão erétil e não sairia dali sem antes ‘faturar’.
Entre piscadelas arrebitadas de uma e outra e apalpadelas quentes entre danças, ele achou, no meio do salão, uma jóia rara esperando seu bote. Linda, cachos longos e dourados, lábios carnudos vermelhos, num vestido longuíssimo que tinha um rasgo fenomenal indo até quase ao quadril, deixando a coxa grossa deliciosamente à vista.
Atravessou o salão decidido e achegou-se naquela nuca. Adorava pescoços. Confiante, sussurrou atrevido. Ela virou-se sem reação, e como se ele invisível fosse, dirigiu-se ao lado oposto.
Atônito por alguns segundos, ultrajado nos seus brios, com olhos sujos vai atrás de outra qualquer. Panoramicamente observa o salão, percebendo que entre as disponíveis, ELA era o que ele queria e precisava. Desiste das demais e vai à caça de sua presa: “Essa será minha!”
Foi no balcão e lá estava ela com um coquetel na mão, uma perna no banco e a outra tocando o chão, deixando perna e algo mais, totalmente expostos. Voou sobre ela prendendo a perna dela entre as suas, roçando firmemente, pensando ter feito um cheque mate. Chega perto de sua orelha e um perfume conhecido o excita. Palavras afoitas e imprecisas deslizam. Ela felina, se esgueira magicamente, saindo do encanto momentâneo. Leva o drink para longe e o deixa atônito, disfarçando atrás do balcão aquela enorme volúpia abandonada.
Agora era questão de honra. “Ela hoje será minha na cabine voyeur”!
Rodou e rodou o salão, o peito doía de ansiedade, as pernas tremiam só na antecipação de um prazer provável. Acha-a, enfim, novamente! Está lá, na poltrona, olhos vagueando a pista. Faltam somente dois minutos para o black out, o momento “pega geral”. Chega de manso e não dá o bote de pronto. Disfarça ao ver aqueles lábios e pernas ligeiramente entre abertos. Senta-se, distraidamente, na poltrona em forma de boca. Afunda e colam coxa com coxa. As luzes subitamente se apagam e a música começa a se tornar ritmada e libidinosa. Passa uma das mãos em sua perna e a outra no pescoço, tateando um e lambendo o outro. Ela tomba a cabeça pra trás e abre mais as pernas. Fica lascivo e vitorioso sussurrando delícias por vir, ela gemendo e contorcendo. A luz acende e a música muda. Ela se levanta de chofre, caminha e se vira. Por trás da máscara ele a vê piscar pausada e sugestivamente. Segurando e alisando insinuosamente o corrimão, começa a subir a passos lentos, olhando para ele fixamente.
Rígido e tenso só de imaginar o significado daquele gesto, fica absorto olhando o andar familiar daquela fêmea exuberante. Quando ela chega ao topo, ele está já a subir, no rastro do cheiro almiscarado. Ela parada na porta da cabine voyeur se esfrega insinuante no portal. Ele entra puxando-a pela cintura e ignorando os olhos atentos atrás do grande vidro redondo. Pega-a pelo cabelo e imprensa seu corpo contra o sofá cúmplice. Levanta o vestido por trás e sente as curvas das nádegas quentes. Excitado com os gemidos dessa gata selvagem e difícil, abre o zíper e lhe desfere estocadas com vontade, fazendo valer o instinto selvagem que já o estava ensandecendo. Segura firme o seu corpo que freme e geme e pulsa.
Ferozes por longos minutos de delícias, ela tomba deitada no sofá. E ele, feliz pela conquista se detém a olhar aqueles profundos olhos verdes e a deliciosa e marcante pinta na borda de seus lábios.
___________________________________________________________
Texto original: Moni Abreu
Ao repostar, favor citar o autor.
