Aquela loja era especial não por ser uma chocolaterie chique, mas porque lá trabalhava Clarisse. Linda mesmo, mais atraente do que qualquer doce embalado em papel dourado. E provavelmente muito mais gostosa. Perdoe-me o chocolate, mas Clarisse era aquele tipo de mulher que você sonha nas noites polutas. Nestes sonhos, levados durante semanas, delirava com relação ao seu sabor, ao seu cheiro, seu gosto.
Todo dia passava em frente à loja e, fitando-a da vitrine de vidro, tinha ereções ‘involuntárias’ e suas pernas tremiam. E cadê a coragem de ir lá, partir para a conquista e realização de seu delírio erótico? Levou tempo até tomar a devida coragem para entrar na loja. E o que conseguiu? Três barras de amargo, um amarula e duas cerejas!
Em desespero comentou com um amigo com fama de ‘sacana’ que lhe disse: “Cara, parte pro abraço. O máximo que pode acontecer é ela te dizer um não. Aí, você cata outra!”
Seguindo essa máxima entrou uma segunda vez na loja.
Tentou disfarçar interesse nos produtos, olhou por todos os cantos até que ela o abordou:
- Posso te ajudar?
- Qual seu nome?
- Clarisse. Deseja algo?
- Sim… olhou engasgado, pigarreou… você!
- Saio todos os dias às 18 horas – olhou-o de cima à baixo com um sorriso malicioso.
- … am… bom… então?
- Se você me trouxer algo que eu gosto eu saio com você. Passar bem.
E virando-se, voltou a subir na cadeira para ajustar a prateira alta de caixas de bombons, deixando seu interlocutor abismado, olhando fixo para o que ele via lá debaixo do mini vestido colorido.
Saiu atordoado. Com a visão e com a auto-decepção. O que será que ela gosta? O que vou fazer? Voltou ao amigo sacana, que deu o seu melhor conselho: -“Cara, mulher gosta de flores, de balagandã, de chocolate.. sei lá.. tenta alguma coisa!”
Chocolate? Nem pensar. Jóia? Não, muito caro. Flores?
Sentia-se um idiota, quando chegou à loja no dia seguinte com as flores coloridas que comprou em lembrança daquele vestido.
Abriu a porta de vidro e num engasgo meio seco:
- Oi,… são…. pra você!
- Ah, valeu!
- Será que… de repente… Poderíamos nos encontrar quando você sair?
- Quando você trouxer o que eu desejo, sim. Antes disso, jamais. Volte amanhã.
E virou-se de um salto, abaixando o volumoso decote em V para pegar duas cestas de trufas de chocolates dispostas no chão.
- “Que diabo de mulher! Que tortura!”, pensou atônito!
No dia seguinte levou-lhe um par de brincos de uma joalheria. Pareceu-lhe ser original. Tinha a forma de gatos.
Entrou de chofre:
- Olá. Trouxe-lhe um presente.
- Gracinha. Adoro gatos.
- Então… – ainda titubeou.. – Podemos sair hoje?
- Você ainda não trouxe o que eu quero. E jogando o cabelo para os lados, não tão distraidamente, deixou a mão descer o pescoço suavemente. – Volte amanhã… quem sabe – disse num meio muxoxo que terminou num sorriso maroto.
No dia seguinte não voltou. Estava em desespero. Não tinha idéia do que ela queria. Passou por uma semana infernal, na mais dolorosa dureza a cada vez que passava lá. Por fim, ensandeceu. Uma noite resolveu esperar do lado de fora, pelo fim do turno da bela.
Primeiro foi a proprietária quem foi embora. Depois o caixa também se despediu, batendo a porta atrás de si. Da rua viu Clarisse sozinha na loja.
Tal qual fera entrou rubro, arfante, teso, quase um louco. Passou pelo balcão e foi direto á ela, no fim da loja, acossando-a na parede, levantando e pegando seus cabelos com as mãos e dominando-a pelas ancas, com uma força quente e decidida.
- Te trouxe uma deliciosa barra de chocolate e vou fazer você comer todinha!
- Ai, finalmente! – submeteu-se Clarisse, inflamada com o ato tão esperado.
E ali, atrás do balcão, entre a escada e o caixa, os barulhos úmidos dos desejos de ambos não foram vistos da vitrine de vidro.
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Texto original: Moni Abreu
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Picante e provocante, parabéns uma linda história.
Alheio a qualquer influência, posso dizer que a sua forma de escrever nesse estilo é um divisor de águas. Não há igual em sutileza, que instiga a imaginação. Ótimo!